Troco flores no dia internacional da mulher por respeito

O dia internacional da mulher é disfarçado de data comercial por causa das propagandas. Hoje não é dia de comemorar. Nenhuma imagem fofa que recebi hoje no whatsapp eu abri. Posso contar nos dedos as msgs fofas que mandei.

Pra maioria das mulheres, enviei uma imagem com a frase “nós podemos mais” e pra algumas pessoas, um print do meu post no facebook sobre a data de hoje:

Não quero flores, chocolate nem parabéns. Quero que o mundo mude. Que a cultura machista do Brasil caia por terra. Quero ser vista como o que sou: uma pessoa. É chato ser vista como pedaço de carne ambulante.

É insuportável ler que uma criança de 13 anos foi estuprada por 4 horas. 13 anos! É nojento pensar que o goleiro Bruno está solto e tem 9 clubes interessados em contratá-lo. Dá nojo ouvir que “Eliza Samúdio procurou porquê se envolveu com ele”.

Ah, óbvio, ela procurou! Veio na testa dele a informação “vou te matar e jogar seu corpo para os cães, por que não vou querer assumir um filho nosso”. Se foi golpe da barriga, se ela se aproximou dele por interesse, se ela não o amava, aqui vai o meu recado pra esses mimimis: FODA-SE.

Nada justifica ele fazer o que fez com ela. Foi triste começar o ano falando nesse blog do feminicídio em Campinas. Da Delegada que apanha do marido, o mesmo sujeito que bateu numa guarda de trânsito. Meus primeiros posts do ano, são sempre sobre agressão à mulher.

Dia internacional da mulher pode até ser lindo, mas aqui no Brasil não temos o que comemorar. Quanto mais mulheres gostarem de trocar mensagens fofas e acharem lindo chocolates, flores e parabéns; menos pensam que hoje é dia de luta. Dia de bater o pé por nossos direitos.

Troco mesmo todas essas fofices de um dia, por respeito o ano todo. Quero ter liberdade de ir e vir, independente do horário e da roupa. Quero não me sentir uma criminosa por usar roupa curta. Quero que o nosso País baixe a triste estatística de violência contra a mulher.

Quero que a Maria da Pena tenha meios e seja suficientemente estruturada para que a mulher após denunciar, não seja assassinada por quem foi o motivo da denúncia. Quero ter o que comemorar no dia internacional da mulher, além do sutiã queimado.

Da revolução de 1960. De poder usar calça. De poder cortar cabelo curtinho. De poder ler e estudar. De poder trabalhar. Eu quero mais. Quero momentos significativos na história da mulher nessa terra.

Como a Globeleza vestida. Como as propagandas de cerveja que não tem mais uma mulher seminua como um pedaço de carne ambulante. Quero conquistas de verdade.

Se você, mulher que me lê, acha que hoje é dia de ganhar flores e ser levada pelo namorado/marido pra jantar; respeito. Afinal, cada uma curte o dia como acha válido. Mas eu, veja bem, eu, Gabriele Barboza, não me sinto bem ganhando flores hoje e amanhã sendo encochada no ônibus.

Pode ir jantar, porque a gente aqui, não para. Lutamos pra colocar na cabeça das mulheres que elas não precisam se casar pra ser feliz, Que elas não tem que servir homens. Que a culpa de estupro não é delas, por ter colocado um short curto.

Pra mim, hoje é dia de lutar por nossos direitos. Dia de levantarmos a bandeira do feminismo. Flores, chocolate, jantares, parabéns e todo esse fofismo não baixam a estatística vergonhosa de que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. O que escrevi no meu post hoje pela manhã no face, continua valendo.

Troco esse 1 dia de gentilezas, valorização e respeito por respeito o ano todo. Troco os parabéns do dia internacional da mulher, por homens que sentem-se ao meu lado no ônibus como sentam-se ao lado de outros homens. Já viu um otário que senta com as pernas arreganhadas e se encostam nas mulheres, sentar assim ao lado de outro homem? Claro que não!

Isso cansa. Pode me chamar de revoltada, de louca. Eu não quero flores, parabéns nem chocolate. Só quero respeito. Ser vista como gente e não como pedaço de carne. Não ouvir piadinhas de que “lugar de mulher é na cozinha”.