Sobre ser mulher e as regrinhas que o machismo que nos impõe

Ser mulher é carregar um fardo. É ver o preconceito nos olhares. Ler sobre “como ser a melhor isso ou aquilo”.

Batom claro e rabo de cavalo! A culta, a santa, a boa moça!

Fiz uma tatuagem no braço e uma outra no meio do peito. Não estava pedindo nada! Na verdade, eu pedia respeito! Igualdade e nada diferente disso. Nada sobre carregar sacos de areia.

Dia desses vi um texto que rolou na internet e as respostas absurdas. Aquele, onde o rapaz sofre um acidente com o pai. E o pai morre. E no hospital, a pessoa mais competente não poder cuidar dele, por ser o seu filho.

“Pai e filho sofrem um acidente terrível de carro, alguém chama uma ambulância, mas o pai não resiste e morre no local. O filho é socorrido e levado ao hospital as pressas. Ao chegar no hospital a pessoa mais competente do centro cirúrgico vê o menino e diz: “não posso operar esse menino, ele é meu filho”. Quem disse isso?”

E aí, qual é? Por que a confusão? Li coisas como: “ela traiu o marido e a pessoa mais competente do centro cirúrgico é o pai dele na verdade”. Outros absurdos foram ditos. Menos o mais simples: que a pessoa pudesse ser mulher e a mãe dele.

Ser mulher é ter medo de sair nas ruas de noite. É não poder usar meu short curto quando eu bem entender. É ouvir cantadas e ter que aceitar como elogios. Sendo que me sinto um pedaço de carne.

Poucos entendem o que o empoderamento e o feminismo nos trouxe: foi libertação e respeito. O feminismo nos dá força pra impor respeito.  O feminismo trouxe à tona o que é ser mulher. Uma luta por respeito DI-A-RIA-MEN-TE.

Vou ter que continuar queimando o sutiã. Deixem eu escolher o que fazer com meu corpo! E pouco me importar se sou “pra casar” ou não. Quem disse que eu quero?

E se eu quiser, a última pessoa que vou querer, é quem pensa igual a você, que ainda nos divide entre as “pra casar” e as que “não são pra casar”.

Já ouviu alguém falando em homem que “não é pra casar”? Claro que não! Isso é um peso que nós, mulheres, ainda carregamos. Por causa do patriarcado. Do machismo arraigado em nossa cultura.

Vim de uma família nordestina. Filha do papai que não podia jogar bola, soltar pipa nem jogar vídeo game. Até hoje me pergunto: por que? Eu era uma criança. E não sabia que para me divertir do jeito que queria, dependia do meu sexo.

Deixar de jogar bola e soltar pipa não fez com que eu não fosse lésbica. Só fez talvez, eu perder a oportunidade de ser uma jogadora de futebol ou gamer.

Quantas meninas que gostam de futebol têm que provar que entendem? Que são boas no que fazem por ser mulher e não homem? Quantas meninas que jogam vídeo game têm que provar que sabem? Que têm a habilidade pra ser mulher e ser gamer?

Provar e vencer o preconceito. Pros homens, essas portas estão abertas. Pras mulheres ainda – espero que isso mude – não.

Outra regrinha pra nós, mulheres, que o machismo nos impõe é ter que ser mãe. Eu ter que explicar pra minha família por que não quero ter filhos, como se fosse obrigação, é chato. E olha que interessante: nenhum primo meu teve que dar essa satisfação pra ninguém.

Eu sou a única que escolheu até o momento não ser mãe. Não casar. E viajar para fora do país. Para eles sou uma louca. Pra mim, sou a destemida.

Em minha jornada, não teve facilidade nenhuma. Estudei em escola pública, me formei em faculdade pública. E ainda tenho o sonho de dar aulas.

Hoje eu trabalho em um ramo um tanto machista: logística agrícola. Essa área é 10% ocupada por mulheres no campo. Mas eu tô cheia de orgulho. Toda vez que vejo uma mina pilotando o trator e ela fala da casa, dos filhos e também da repressão que sente, ela é como eu! Não se deixou levar.

E há quem diga que nessa área, só se consegue ir longe sendo mulher, sendo bonita. Tive que chegar com os dois pés no peito. Na faculdade, passava quem sabia trabalhar, quem era independente.

Estou onde estou com muito esforço. E tento passar isso para todas as mulheres, mães e avós que eu conheço. Elas dão risada, me chamam de louca. Dizem que é cultural, que sempre foi assim.

E eu respondo:

– Então vou fazer deixar de ser!

Alguém questiona em uma entrevista de emprego, a algum homem, se ele tem filho ou se pretende ser pai? Como se isso fosse algo negativo? Não! Ser mulher é ouvir isso em 90% das entrevistas.

Fecha a perna! Lave a louça! Quantos filhos você  têm? E o marido?

A luta está em todo lugar, preciso reforçar todo dia, onde eu estiver. Pessoas só associam o feminismo às coisas muito pequenas perto do que temos que lutar. Temos que lutar por um direito que o homem já nasceu com.

Até quando vou ter que provar que sou igual? O feminismo trouxe tudo isso a tona. E tenho orgulho ao ver o movimento crescendo. Estamos ganhando respeito.

*Esse artigo é uma colaboração da minha amiga Paula Rodrigues.