O menino esperto do buzão…

Esse menino ganhou meu coração! Era a fofura em forma de gente. Questionador e bem espertinho, ele fez do meu dia no buzão algo mais leve! Usar ônibus é tão chato. A gente, muitas vezes, é carregada como fosse boiada. Na maioria das vezes está cheio demais, as pessoas passam quase que levando a gente junto. É triste depender disso pra nos locomover! Mas coisas como essas que me acontece, fazem essa chatice ser mais leve!  Aqui na coluna “crônicas”, eu conto só o que me acontece aqui em Porto Alegre e eu acho tão fofo que merece um post aqui no site!

 

Lá vai:

 

Tô eu ontem, linda e bela, fazendo make no buzão. Aí veio um menino com a mãe, ele sentou do meu lado e ela ficou em pé, segurando nos bancos. Ele me olhava, olhava pra baixo. Me olhava, olhava pra baixo. Até que começou:

– Mãe, o que ela está fazendo?

 Eu ri pra mãe dele como quem diz “deixa pra mim, que eu lido bem”.

– Pergunte a ela, meu filho. – Respondeu a mãe dele
– Posso mãe? – Perguntou ele ressabiado

– Pode, filho. – Respondeu ela bem tranquila

 

Aí ele olhou pra baixo, pensou um pouco e mandou:

– O que tu tá fazendo? – Bem curioso
– Maquiagem! Pra ver se fico bonita igual você. – Fui amável com ele
– Olha mãe, ela disse que sou bonito! – Ele ficou todo feliz
– Tu é meu filho! Um gato! – Falou a mãe dele
– Eu sou mesmo. Bonito e gato. – Falou ele todo pensativo

 

Ficou em silêncio e eu neh, naquela mexida do reboco. Dando jeito na cara.

 

Vem ele de novo:
– Mas tu não vai ficar bonita como eu. – Soltou a bomba!

 

A mãe dele me olhou com cara de “não sei o que faço com ele!!!” e eu ri pra ela e pisquei o olho como quem diz “tá tudo bem, fia”.

– Por que? – Perguntei né, pra ver o que mais viria dali. Eu gosto dessas futuras!

– Porque tu tem esse volume aí, seios. Peitos. Mamas. Igual a minha mãe. Bonito é assim, como eu! – Passou a mão no corpinho, mostrando que era retinho.

– Ah, então não fico mesmo porque maquiagem não resolve isso.

– É. Por que tu já nasceu assim, entende? Não há o que fazer mesmo.

– Mas nem ligo. Tá tudo certo. – Falei concordando com ele.
 
 

Ele se calou e eu também. Umas duas paradas só! Ele olhava pra baixo. E eu pensando ‘ainda não acabou’.

 

Daí ele quebrou o silêncio:

– Tu sabe que minha mãe diz que quando eu era criança, eu colocava a boca ali e saia leite? – Gente, o serumaninho, devia ter uns 7 anos!!!

– Ah é? – Instiguei ele a falar mais sobre!

– Sim. Ela diz! Mas eu não me lembro de colocar a boca nos seios dela. O teu também sai leite? 

– Não. O meu não sai.

– Já saiu alguma vez?

– Não. Nunca saiu.

– Sabe, se eu não me lembro, fica complicado acreditar que do da minha mãe saiu leite e eu bebi isso, entende?

A mãe dele se matava rindo, olhando pros lados. E as pessoas ao redor estavam rindo também. E eu, claro, me segurava pra não rir. Senão, ele ia ficar sem graça e parar de falar. Levei o assunto na maior seriedade! 

– Entendo. Eu também, quando não me lembro de algo que a pessoa conta que eu fiz, fico sem saber se aconteceu mesmo. – Falei dando razão a ele.
– E faz muito tempo, tu me entende? Eu era criança ainda! – Falou ele como se já tivesse uns 30 anos.

– Sim, faz mesmo, um tempão. – Concordei, claro.

– É porque agora eu sou o homem da casa, tu sabe? Meu pai sai e diz “tu cuida tua mãe, tu é o homem da casa quando não estou” e eu cuido dela! – Disse ele todo orgulhoso do posto de ‘homem da casa’ temporário na falta do pai.

– Cê faz muito bem em cuidar dela. – Dei razão, como sempre! 

 Ele ia falar mais coisa, mas a mãe dele disse “tá chegando a nossa parada! Vamos descer guri, não posso com a tua vida” e me olhou e disse “desculpe” e eu “nada a desculpar”. Rimos uma pra outra.

 Ele me disse:
– Então já vou indo. – Bem sério e educado.

 Falei:
– Tchauzinho! – Bem cordial também com ele.

 

E da porta, o menino me deu outro tchau. Também dei tchau pra ele.

Tão espontâneo! Tão educado. Tão seriozinho! Adorei esse menino, gente!  Fico desmontada com essas criaturinhas que nem me conhecem e já desandam a falar.

O mais legal é que muita gente comenta comigo que eles não saem falando assim com qualquer pessoa. Só com quem sentem confiança para falar. Eu fico muito orgulhosa disso!