O idoso fofo do Zaffari

Estava eu no Zaffari ali da Riachuelo, sentada no banquinho que fica depois dos caixas – esperava um retorno no whats (não uso mais celular pela rua). Daí veio um velhinho fofo, com muitas sacolas e um carrinho desses de supermercado – pra carregar objetos, com duas rodinhas – muito usado por senhorinhas em feiras de verduras.

 

Achei que ele ia só se sentar. Capaz! Ele ia ajeitar as compras no carrinho. Só que o bendito do carrinho não parava quieto. Então, me joguei!

 

– Eu posso ajudar o sinhô? – Questionei antes pra ele não se sentir invadido.
– Claro, minha filha. Muito obrigado. – Respondeu ele sorrindo pra mim.

 

Aí segurei o carrinho. Ele tirou uma sacola do fundo e fomos ajeitando as sacolas do Zaffari.

– Essa é pesada! – falou ele sobre a sacola de bananas.
– Então nós podia colocar ela no fundo neh. Antes das outras.
– Báh. Mas vamos ter que tirar tudo.
– Uai! E o quê que tem? O sinhô tah com pressa?
– Eu não. Mas tu sim.
– Eu com pressa? Capaz sô. Vão arrumar isso aí.

 

Tirei três sacolas. Botamos a pesada no fundo, botamos as outras. Ajeitamos tudo. Aí tinha o jornal.

– Podemo colocar aqui óh. – Falei, arrumando espaço no cantinho do carrinho. Uh inocência!
– Não guriazinha. Tem o espaço aqui, pra isso mesmo. – Falou ele me mostrando um espacinho atrás do carrinho que era mesmo só pra jornal.
– Gente, mas que carrinho chique, meldels! O sinhô tah bem de carrim heim?!
– Ah, ele me ajuda muito. Tu também devia ter um.
– Ah eu devia mesmo que a minha coluna, é estourada.

Ele colocou a sacolona que tinha tirado do fundo, em cima das sacolas do Zaffari. Dizendo que era pra disfarçar as coisas que tinha dentro. Jah que a sacolona era de pano de saco, bem velha. Achei uma fofura.

 

Enquanto ele fazia uma amarração no carrinho que mais parecia de escoteiro e eu ajudando, conversávamos.

– O que tu fez pra tua coluna ficar ruim?

– Uai, quis ser a esperta neh… E arrumando o arquivo na primeira empresa em que trabalhei aqui em Portalegre, carregava 8 caixas enquanto devia carregar 3!
– Báh… Tu não fez isso!
– Fiz!
– Tu cuida essa coluna!

 

Terminamos a arrumação da cordinha. E ele veio tirando um bombom do bolso.

– A senhora tem filhos?

– Não. Ainda não.
– Ah sim. Mas tu vai ser uma boa mãe.
– Ah é? – Instiguei ele a falar mais.
– Ah sim. Olha que tenho 87 anos! Quem tem paciência assim e cordialidade com gente da minha idade, tem com crianças tb.
– Muito obrigada! Bombom eu até gosto, mas tô de dieta. Então o sinhô pode guardar aí pra outra pessoa.

 

Ele guardou o bombom no bolso de novo falando:

– Sempre tenho um bombom pra dar a quem me ajuda. Hoje em dia ninguém tem tempo e paciência com gente da minha idade. Um bombom é a forma de fazer com que os poucos que têm paciência, continuem ajudando.
– Tomara que o sinhô sempre ache alguém pra ajudar! Acabamos a arrumação do carrim?
– Ainda não! – Disse ele, colocando uma parte que tava virada pra trás, na frente e tampando assim, a cordinha. Se levantou pra ir embora.
– Ô carrim chique! O senhor vá com Deus! – Falei, segurando o carrinho p ele ajeitar o trem em que se apoiava pra andar.
– Muito bonito o teu sotaque! Tu és de Minas neh, guria?!
– Obrigada! Sou sim.
– Não perca o sotaque. Tenha orgulho do teu Estado.
– Xá comigo.

 

E foi ele embora. Devagarzinho. Ainda não sei se ele levava o carrinho ou o contrário. Sei que cheguei na faculdade muito atrasada e valeu à pena.