Criminosa que sou, devia ter morrido no ninho!

Sou criminosa. E o crime que cometi foi nascer mulher. Homens decidem a todo tempo como devo me comportar, me vestir, onde andar, com quem andar. Chega essa época aqui em Porto Alegre, é um calorão de meu deus. E eu, desgraçada, mulher, não posso sair fresquinha, com as pernas de fora.

Amo usar vestido acima do joelho, saia. E eu posso me dar a esse luxo? Claro que não! É sair sozinha, com uma roupa feminina, que valoriza minhas curvas e pronto: olhares e mais olhares nojentos de homens, como fossem me devorar. Tudo que passo o dia todo, se multiplica por mil.

Não é exagero, é o meu crime. Aliás, meu não! Dos cromossomos no momento da divisão celular, daquela história toda lá dos XX e XY. Eu me fodi, nasci mulher. Se saio de casa com pernas de fora, para não sentir tanto calor, me sentindo linda e feminina, com saia, short ou vestido acima do joelho, “estou pedindo para ser estuprada”.

Os olhares que algumas mulheres lançam sobre um homem sem camisa ou correndo pela rua, são completamente diferentes dos que eu e outras mulheres recebemos quando estamos de vestido/saia/short curto ou acima do joelho. Os que recebo, me dão medo, fazem sentir-me acuada.

Dia desses, estava com a cabeça sei lá onde e saí de casa com um vestido curto pra ir trabalhar. Fazia entre 30° e 38° aqui na Capital Gaúcha. Estava me sentindo bem fresquinha, já que o tecido do vestido é leve. Não era nada provocante. Sou discreta, não uso nada colado nem decotado.

Era só um vestido 4 dedos cima do joelho que me deixa mais feminina. Me arrependi muito! Até para atravessar a rua, eles me olhavam como se fossem me pegar à força. E olhares nojentos, como se fossem cães na calçada vendo o frango girando ao ser assado no forno.

Meu crime foi nascer mulher e o todas as mulheres também. Estou sentenciada por toda vida a viver sob esses olhares que parecem espadas e que vão me partir em duas a qualquer momento. Quem me garante que esses olhares não são de um maluco que vai me estuprar em pleno dia?

Jamais pago pra ver! Nenhuma de nós paga! É homem, sentimos medo. Somos alvo de comentários imbecis como: “está com as pernas de fora, quer rola!”, “se veste assim porquê quer uma lição”

Quem deu aos homens a liberdade de definir como nos vestir, onde irmos e como irmos??? Eu queria, que por um dia, um machista que diz que “mulher que põe as pernas de fora, está pedindo”, fosse mulher. Que aí ele iria ver que não interessa, estamos de saia, vestido, calça. O tempo todo somos reféns do medo.

Quando praticamos um crime, isso nos acompanha para o resto de nossas vidas. Não posso estar nas ruas à noite, pois aí sim, que “sou vagabunda”, “estou procurando e vou achar”. Há uns meses, fiquei no trabalho em hora extra até às 21:00 e quase morri. Pois, por um lado, estava orgulhosa de ter colocado o trabalho em dia; mas por outro, ou ia embora de táxi ou pedia meu marido para me buscar.

Sabem o que é isso? Resultado do meu crime, de ter nascido mulher! Vai eu sair do trabalho às 21:00 e pegar ônibus… Socorro! O medo de sair pelas ruas à essa hora, é enorme. Essa é minha vida de criminosa. Ninguém mandou nascer mulher.

Estamos em pleno século XXI, pagamos contas pelo celular, temos app até pra pedir comida sem ter que sair de casa. As coisas evoluíram e ainda assim, as mulheres sofrem abusos de todas as formas. Somos vistas como meros objetos.

Pedaços de carne ambulante pela rua. Alguns machos defensores de outros e sem a mínima noção do que passamos a todo instante, por medo de estarmos próximas de outros caras, dizem que “o short que é o culpado por mulheres serem estupradas”. É muita merda numa frase só.

Mulher que se relaciona com mulher, não ataca a outra se ela estiver de short. Pode ser a mais bela do mundo! O problema não é o tamanho do short. Se estou de saia curta, com algum colega do trabalho do lado, nem me olham. Respeitam apenas homens. Eu, criminosa, se estou sozinha, com as pernas de fora, pronto!

Somos encochadas nos ônibus/metrô. Precisamos que outros homens tirem o nojento de perto da gente quando reclamamos. Ainda bem que aqui em Porto Alegre, quando reclamamos disso, logo colocam o porco-nojento pra fora do ônibus.  Mas precisava disso??? Era só nos respeitar!

Dias desses, li no facebook uma postagem de uma amiga de Brasília, que estava no ônibus, com um verme-infeliz do lado, com as pernas tão abertas, que ela se sentia espremida. Ela pediu que ele fechasse as pernas e explicou que estava espremida. O cara disse que se fechasse, quem ficaria espremido seria ele. Precisou um outro cara falar grosso com ele, pra ele se ajeitar.

Criminosa! Criminosas! Somos todas desgraçadas! Maldito cromossomo X duplicado no momento da diferenciação sexual! Estamos sentenciadas pro resto da vida a sofrer com tanto medo. Tanto olhar. Tanta apreensão. Somos todas filhas da puta, criminosas e vagabundas! Devíamos ter morrido no ninho.

A saia curta e o vestido curto é pedir pra “levar pau”. A calça jeans que marca a bunda, é porquê “queremos dar”. Meu lugar, “é na cozinha”. O salário que ganho inferior ao colega que faz a mesma função, mas recebe mais, é “assim mesmo”. Afinal, “isso que é o certo”. Se falo alto ou rio muito, “sou vadia”. Se estou séria demais “fui mal comida”.

Se estou nas ruas à noite, criminosa que sou, “estou procurando e vou achar”. Estudar, fazer pós, me preparar para o mercado de trabalho, ser uma boa profissional, nada disso será motivo para eu receber igual aos homens; mas claro! Eles merecem e eu? Eu sou criminosa, oras!

Se não uso salto, “não imponho respeito, não estou bem apresentável”. Se uso all star, “não amadureci”. Se fosse mãe solteira, seria “a vadia do bairro”. Se me relacionasse amorosamente com outra mulher, seria “a safada que não teve uma rola de verdade na vida”.

E claro, que se trair o marido com o outro homem, ainda que seja também casado, a sentença é bem definida: ele será “o comedor, o fodão” e eu serei “a vagabunda, vadia, piranha, puta que merece apanhar”. Geni – Taca bosta na Geni! Ela é boa de apanhar!

E assim o mundo caminha. Nasci mulher. Estou ferrada, estamos todas ferradas. Vadias. Putas. Vagabundas. Criminosas desde que nascemos, devíamos ter morrido no ninho. Sonho com o dia que isso mude. Mas sei não… Acho que nem daqui a mil anos. Espero estar errada. Espero que um dia, deixemos de ser criminosas.

Se eu tiver um filho, vou ensiná-lo à respeitar as mulheres. A trocar de calçada a noite, quando ver de longe uma moça. A ver em volta e ficar atento às mulheres, para estar preparado caso alguma precise de ajuda. Caso necessite ser livrada de um verme-nojento-imbecil-machista.

Esteja onde estiver, como estiver. Mulher merece respeito. Estamos cansadas de sentir tanto pavor. Estafadas dessa merda toda. Eu só queira ser livre pra ir e vir, independente da minha roupa, do lugar e da hora.

Mas, criminosa não tem direito a liberdade nenhuma.