Confissões de uma mineirinha que se apaixonou por Porto Alegre

Sábado passado, Porto Alegre completou 244 anos. E então, senti, que mesmo em meio a crise que o Estado passa atualmente, era a hora de dizer o quanto sou apaixonada por essa Capital. Sou mineira, de Pará de Minas. Certo, eu explico, Pará de Minas, fica a 40 km de Belo Horizonte, capital mineira e tem 200 mil habitantes. É cidade do interior, todo mundo sabe da vida alheia e não tem uma livraria lá, nem MC Donald’s, C&A, Marisa, Renner, Shopping. Mas está no mapa, tem wifi, Coca-Cola e Guaraná Antartica. Não estou cuspindo no prato que comi, apenas explicando resumidamente de onde vim. A cidade é legal, mas sempre quis me mudar de lá. Sabe aquele lugar que você sente que tem uma cabeça de boi enterrada e que nunca vai evoluir? Pois bem. É Pará de Minas. Morei lá 26 anos da minha vida e sempre foi a mesma coisa. Meu Avô, na semana que morreu, disse “eu morro em Itaúna, mas não morro aqui!” e foi pra Itaúna, morreu lá. É uma Cidade legal, Pará de Minas, mas não cresce, não evolui e não tem nada além de bares. Pra quem mora e gosta de morar lá, parabéns. Eu sempre quis sair de lá. Sairia depois de me formar, me estabilizar financeiramente, vender minha biz e compra um carro… Mas os planos mudaram – qualquer dia eu conto como vim pra cá.

Eu vim com muito medo do inverno. Uma amiga de São Paulo que tinha morado aqui, me alertou: “Gabi, não tenha medo. O primeiro inverno, você vai pensar que vai morrer – e sim, eu achei que fosse morrer, acordava pela manhã, via 1°, 2° graus no celular e pensava ‘é hoje que tenho uma pneumonia, duro 5 dias e morro’; o segundo, você vai sentir menos e o terceiro, você vai tirar de letra”. Assim foi. Do inverno eu estava avisada, mas ninguém me avisou que o verão chegava a marca dos 48°! Hoje, depois que sobrevivi a 3 invernos e 4 verões, continuo sendo frienta e detestando o inverno, mas entre o verão e o inverno daqui, prefiro o inverno. O verão aqui é seco, mais seco que em Minas, chega a arder o nariz. E não tem um vento pra contar história, é aquela coisa parada, um mormaço do cão. Os ônibus aqui, a maioria tem ar condicionado.

Aqui, não interessa onde você está, nem para onde vai. As pessoas sempre te explicam como chegar onde você precisa. Há quem diga que gaúchos – me referindo também às gaúchas – são grossos. Não vejo assim! Os vejo como pessoas diretas, como eu. Em Pará de Minas, se você ficar 20 minutos na parada – lá se chama ponto – de ônibus, você fica sabendo de ao menos, 4 histórias de vida. Detalhe: histórias que você não queria ouvir, não queria saber e definitivamente, não precisava saber. As pessoas sempre perguntam se o ônibus Tal já foi e quanto tempo falta para o ônibus Tal 2 chegar. Eu detestava isso! Espera em consultórios médicos então, era um terror, todo mundo falava com todo mundo, contava a própria vida. Eu nunca gostei de ouvir sobre a vida de ninguém, tão pouco contar a minha. Coisa mais chata! Uma coisa é você se dispor, algumas horas do seu dia a ouvir, outra coisa, é ser obrigado a ouvir sempre, só de olhar pra pessoa, por ser cidade pequena. Algumas pessoas diziam que eu era intolerante. Aqui, você pode passar 2 dias na parada, que ninguém te pergunta nada. A maioria das pessoas têm fones no ouvido, estão lendo e não se preocupam com a vida alheia. Quando querem saber algo, as pessoas perguntam aos motoristas de ônibus ou, dependendo da parada, aos fiscais das empresas de ônibus. Acho isso um máximo! Claro, que quando alguém precisa de ajuda, apesar de eu ter ouvido muitas reclamações das pessoas daqui, dizendo que os porto alegrenses não ajudam, eu já presenciei vários ajudando uns aos outros.

Aqui tem muitos prédios históricos que dão um charme a mais à Capital. me lembra as Cidades históricas da minha Minas. E as livrarias daqui? Deus do céu! Livraria aqui é que nem boteco, gente: em cada esquina tem uma. No centro, é cheio de sebos. Eu fico maluca quando tem anualmente, a feira do livro e encho a boca pra dizer “moro na Capital da Feira do Livro”. Me sinto mais importante, sabe?! Coisa de quem tem um caso de amor com os livros!

Quando houve o incêndio no Mercado Público, eu chorei.  O incidente na Kiss também me fez chorar. Me sinto parte daqui. Por onde ando, planto coisas boas. Ajudo as pessoas na rua e estou sempre envolvida em algum trabalho social. Essa é a forma que tenho para agradecer a essa Capital que me acolheu tão bem. As pessoas adoram o sotaque mineiro que tenho.  Não puxo mais o ‘R’, como antes, falo o ‘R’ hoje como os belorizontinos, mas ainda falo “trem”, “uai”, “miora”, “vaza”, “pó largá” e muita coisa que as pessoas que convivem comigo, adoram. Levei um tempo pra descobrir que misto “é torrada”, que pão doce “é massinha” – mas ainda peço pão doce na padaria, que guimba de cigarro “é toco”… Muita coisa já faz parte do meu vocabulário como “vai te deitar”, “báh”, “que barbaridade”.  No começo me sentia uma criança, sem saber por onde andar, como chegar, sem ter amizades. Mas agora, tô melhor; fiz várias amizades e ando bem por Porto Alegre. Tah… Eu ainda fico em dúvida sobre qual lado da Assis Brasil vai pro centro, pego uns ônibus errado e levo 3 horas pra chegar onde levaria 1 hora. Mas tudo bem. Dou risada e toco o barco.

As pessoas aqui, por ser capital e próxima a Gramado, recebem muita gente de fora e o fazem bem. Dia desses descobri por que bastava falar o endereço em um táxi para ouvir a pergunta clássica: “tu não é daqui neh?”. É que sempre antes de entrar em um táxi, pergunto se está livre. Motivo? Uai… eu não sei se o motorista acabou de receber uma ligação para ir tirar a mãe da forca e ainda não ligou o carro, educação, sei lá. Eu não consigo simplesmente ir entrando. O carro não é meu! Ao menos um sinal pra ver se ele dá ok pra entrar, eu tenho que fazer. Então, dia desses, um motorista de táxi me disse “a gauchada vai entrando e se recebemos ligação pra tirar a mãe da forca, não querem nem saber, pedem pra primeiro deixá-los no endereço e depois tirar a mãe da forca”. Costumes né… vida agitada. Não consigo fazer isso. E por onde passo, ouço falar muito bem de Minas. Da hospitalidade, da culinária, das Cidades Históricas.

E a carne?! Ai meu Pai! Carne aqui é igual pão de queijo lá em Minas! Costumo dizer que saí de Minas, mas Minas não saiu de mim e não saiu mesmo. Mas se a coisa lá é o frango e a coisa aqui, é a carne; nasci lá pra morar aqui mesmo! O povo aqui faz churrasco pra comemorar que o time ganhou o Estadual, pra comemorar aniversários, formaturas, pra comemorar aumento de salário, pra comemorar a vida, pra aproveitar enquanto a chuva não chega, pra receber visitas, pra reunir os amigos… Sim, gente, não estou exagerando. Tudo aqui é motivo pra churrascar e eu adoro! E aqui é churrasco de carne mesmo, você custa a ver uma asinha de frango. Aliás, a única coisa de frango é um coração, uma sobre coxa e deu! Negócio aqui é carne mesmo. E se compararmos com Minas, aqui se come muito e bem por preço baixo. A maioria dos restaurantes aqui, tem buffet livre, com refrigerante, suco e sobremesa liberada.

Se eu tivesse que eleger três lugares mágicos aqui em Porto Alegre, seriam:

A orla do Guaíba aqui na Zona Sul: há três anos passo por ali e há três anos, olho pro Guaíba com a mesma cara embasbacada, como se fosse a primeira vez a ver aquilo. Coisa mais linda!

A livraria Cultura do Bourbon Shopping: fico maluca lá dentro. São trocentos livros por metros quadrados, um atendimento excelente, poltronas para ler e tomar café ou chá e o melhor: dois andares de livros. Um lugar assim, que parece ser um pedacinho do céu!

O entorno do Beira Rio: sou cruzeirense, colorada e flamenguista – qualquer dia eu explico isso, mas adianto que não maluca e isso tem ordem de torcida para eu não perder o foco. O entorno do Beira Rio é uma coisa linda, seja às sete da manhã, seja ao fim da tarde, seja a noitinha. É lindo demais… E quando eles apagam as luzes e ficam as luzes vermelhas por fora… olha, chega a dar arrepio.

Já me sinto adotada por Porto Alegre. A única coisa que fico com pena deles, é que eles comem pão de queijo ruim, achando que é a oitava maravilha do mundo. Quando consigo, ensino o que é um pão de queijo que preste. Aliás, em um restaurante que eu almoçava diariamente no centro, ensinei a fazer feijão tropeiro. Porquê quando vi escrito “feijão tropeiro” em frente a um feijão com caldo, pensei “tenho que explicar com jeitinho que isso aqui é qualquer coisa, menos feijão tropeiro” e os donos do restaurante, um casal, ficaram muito agradecidos por isso. E sim! Conseguiram fazer um feijão tropeiro de se comer rezando!

Atualmente o Estado está em crise, mas ainda assim, me sinto mais segura aqui que em Belo Horizonte. Das 6 vezes que fui em Belo Horizonte, fui assaltada 4. Não me sinto bem naquele lugar e por onde ando, digo: a capital de Minas devia voltar a ser Diamantina. Belo Horizonte é bonita só nas propagandas de tevê, que mostram a Pampulha. O centro é um lixo, os andarilhos que moram debaixo das pontes, assaltam as pessoas. Os andarilhos daqui, o máximo que fazem, é xixi no chão. Porto Alegre é mais linda que a Capital mineira. É mais limpa, não tem pivetes  na rua assaltando velhinhas, não tem lixos espalhados por todo o centro, não tem 80% dos prédios pichados. Enfim… me apaixonei perdidamente por esse pedaço do Rio Grande do Sul e quando vejo uns gaúchos falando mal de Porto Alegre, na página da Zero Hora, eu falo logo “vaza daqui então!”.

Apesar do clima atual de insegurança e crise que o Estado vive, Porto Alegre é uma maravilha de se morar. Aqui tem umas tempestades loucas, que me fazem pular na cama de medo, coisas horrorosas que varrem árvores, destelham casas e causa muito problema, mas nada nessa vida é perfeito. Jamais moraria em Belo Horizonte. Já aqui, moraria até minha morte e na próxima vida. Poderia escrever um livro sobre como amo morar aqui.

Chimarrão? Não desce gente! Já tentei. Faço zoeiras com meus amigos sobre essa cultura, mas respeito muito. Amo as músicas gaudérias e o hino do Rio Grande do Sul… Sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra… me arrepia! Todos aqui, conhecem o Hino do Rio Grande. Eu, aos 30 anos, não tenho vergonha de dizer: não conheço o Hino de Minas.

Caetano que me perdoe, mas Porto Alegre é linda!